Quem disse que o mar tem de ser azul?

A minha primeira introdução ao mundo da ilustração, em 2017, foi através do bullet journaling. Na altura, havia vídeos e mais vídeos dedicados a fazer o spread do mês, da semana ou de um tema específico, com uma constante que eu achava brutal: o desenho e a pintura de capas fabulosas, e setups fluidos, cheios de elementos visuais que respondiam a um tema. Sempre fui uma sucker por temas.

Board de “Favoritos” para o mês de Fevereiro - Papel Aguarela 300gsm Canson, Aguarela Holbein, lápis de cor Polychromos Faber-Castell, 2022

Onde entra o fofinho pela primeira vez? Sempre fui muito amante de desenhos animados — fossem eles anime (Sailor Moon forever!), ou de outros estilos visuais (As Aventuras de Tom Sawyer!). E, claro, a magia dos filmes da Disney, que me acompanharam enquanto crescia, fazendo-me sonhar com mundos imaginários onde tudo era possível.

Sketch rápido, grafite em sketchbook Fabriano, 2020

Juntando isso ao facto de ser uma criança que lia muito — e com uma capacidade de imaginação voraz, alimentada por uma timidez gigante que me fazia querer passar o máximo de tempo possível sozinha — sobrava-me imenso espaço para brincar ao faz-de-conta com os meus peluches e criar esses mundos só meus. Naturalmente, quando tomei contacto com a ilustração, esse foi o caminho que quis seguir: a ilustração infantil. A oportunidade de materializar todos esses mundos imaginários que passei anos e anos a desencantar.

“A minha criança interior”, dupla página em brush pen Kuretake, em sketchbook Talens Art Creations, 2024

Tenho pensado muito sobre o momento em que o fofinho deixou de ser a minha assinatura para passar a ser confinamento. Não consigo precisar o instante exato, mas sei que está intimamente ligado à minha prática de sketchbook. Ao longo dos últimos três anos, preenchi cadernos de forma quase fervorosa, levando um comigo sempre que podia; já vou em mais de vinte. Neles construí a minha biblioteca visual: explorei temas, cores, traços, com a urgência de quem sentia que o mundo podia acabar amanhã e eu podia não ter mais tempo para fazer arte. A loiça podia ficar por lavar; o sketchbook vazio, nunca. Este foi também um período atravessado por uma mega-depressão. Os momentos passados com os cadernos e os materiais de arte eram como estar com aquele amigo que pode não dizer nada, mas cuja presença, só por si, já traz conforto. Fiz psicoterapia, o que me ajudou a tirar muitos esqueletos do armário (e macaquinhos da cabeça).

Última página de sketchbook Arteza, aguarela e caneta, 2023

Quando comecei a tentar vender a minha arte em mercados, algo mudou. De repente, começou a surgir uma sede por temas mais adultos. Em grande parte porque o feedback era quase sempre o mesmo — “ohhh, tão fofo!” — seguido de ninguém comprar nada. Foi então que caí no erro de alterar o tipo de arte que fazia e comecei a gravitar para temas mais vendáveis. Em certa medida, resultou: vendi alguns originais e prints. Mas, em contrapartida, perdi quase por completo a paixão por contar histórias ilustradas. E comecei a sentir-me perdida.

Sketch floral, aguarela Holbein em caderno Arteza, 2023

Desenhar só para vender parecia-me, na altura, o epítome de uma carreira artística — aquilo que significava, afinal, viver da arte. Foi aí que se iniciou uma batalha interna entre artista e ilustrador. Na minha cabeça, o artista tinha liberdade total para decidir temas, técnicas, formatos, tudo. Já o ilustrador era um pau mandado, alguém que desenhava apenas aquilo que lhe pediam. Pelo que observo na comunidade artística, esta é uma ideia bastante generalizada, e acredito que as redes sociais tiveram um impacto enorme na forma como estas perceções se moldaram. Existe uma visão muito romantizada do artista que passa dias a fio no seu atelier, fechado com os seus materiais, até que, ao fim de um certo tempo, eclode e apresenta uma série de trabalhos que constituem uma coleção. Na minha cabeça, isso significava liberdade total. E para quem se sentia presa — pela vida, pelas responsabilidades e pelos próprios sentimentos — essa ideia era profundamente sedutora. Assim, depois de passar 2024 dedicada à ilustradora em mim, 2025 foi dedicado à artista. Hoje, não faço qualquer distinção entre uma coisa e outra. Um ilustrador é um artista. E um artista também pode fazer ilustração. Mas, na altura, não era assim que eu via as coisas.


Hoje em dia, as minhas perceções mudaram, muito fruto do meu afastamento das redes sociais e da própria experiência de vida. Já não procuro liberdade absoluta. Até porque percebi que preciso de estrutura. Quanto mais liberdade tenho, menos faço. Um campo demasiado aberto deixa-me completamente bloqueada pelo número de decisões possíveis e pelas infinitas direções que se podem seguir. Por isso, 2026 será um ano de regresso ao foco na ilustração.

“A descoberta”, Ilustração criada para a exposição coletiva “IlustraMulher”, MAEDS, 2024

Agora com mais experiência, técnicas mais desenvolvidas e mais conhecimento, mas sobretudo com a certeza de que a ilustração, que junta duas das minhas disciplinas favoritas — o desenho e a pintura — sempre foi a linguagem mais honesta através da qual consigo transmitir pensamentos e emoções. Afinal, a liberdade que eu tanto procurava já lá estava. Estava apenas escondida debaixo de anos de expectativas desajustadas e exigências tolas.

Mesmo quando trabalho num projeto de livro ilustrado em que as cenas se passam numa paisagem de mar… quem disse que o mar tem de ser azul?

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